Conselho comprova desvios contra Raimundo Queiroz

Raimundo Queiroz depositou cheque do clube em conta de sua empresa, sacou dinheiro em cartão corporativo e deu prejuízo milionário ao clube
O ex-presidente do Goiás Esporte Clube Raimundo Queiroz está com a difícil missão de apresentar sua defesa, depois que uma sindicância apurou o rombo de mais de R$?16 milhões e apontou responsabilidade dele no caso. Todo o histórico de Queiroz na direção do maior clube de futebol de Goiás foi esmiuçada. As provas são contundentes contra ele, alguns diretores de seu período e até seu filho, Igor Queiroz, que também trabalhou no Goiás nesse período.
Fonte: Jornal Opção
Raimundo Queiroz foi presidente por dois mandatos consecutivos — 2003 a 2006 — e após sair da diretoria foi colocado sob suspeição pelo desencontro das contas apresentadas e pela situação de terra arrasada em que seus sucessores encontraram as finanças do clube. Em dezembro do ano passado, depois que a condição de penúria do clube foi revelada, o Conselho Deliberativo se reuniu com uma presença recorde de 177 conselheiros. Todos ouviram Raimundo Queiroz se emocionar ao fazer sua defesa e, às lágrimas, dizer que era um “homem pobre”, honrado e que não havia desviado dinheiro do Goiás.
Diante das contradições existentes entre o que as suspeitas apontavam e o que o ex-presidente alegava o conselho deliberou por nomear uma comissão para investigar e dar chance de defesa a Raimundo. A comissão formada pelos conselheiros Emídio de Souza, Rogério Santana Ferreira e Joneval Gomes de Carvalho esgotou o tema. O expressivo montante do passivo deixado por Raimundo no clube — R$?16 milhões — é suficiente para montar um time de ponta e disputar em igualdade de condições campeonatos de envergadura nacional.
Segundo conselheiros ouvidos pela reportagem, o resultado das investigações é contundente e apontam para responsabilidade do ex-presidente. “A situação de Raimundo é quase indefensável”, disse um conselheiro que teve acesso ao relatório e que se impressionou com o volume de provas colhidas. Os conselheiros deliberaram por encaminhar o relatório final para a direção do clube e tomar providências mais enérgicas como representação criminal e responsabilização civil do ex-presidente. Em resumo, o Goiás Esporte Clube quer levar seu ex-presidente às barras da Justiça e fazer com que ele pague o que deve.
Raimundo assumiu a presidência do clube em 2003 e elevou sua remuneração para R$?35 mil, fora as benesses que o cargo lhe proporcionava. Ele chegou a comprar uma caminhonete cabine dupla com todos os itens de luxo para servir a si próprio, com dinheiro do clube, é claro.
A desorganização administrativa do período Raimundo Queiroz no Goiás beira a primariedade, avaliaram os técnicos que fizeram a auditoria. Contratos com jogadores que não eram registrados na contabilidade oficial do clube, empréstimos feitos sem critério e sem autorização da diretoria, confissão de dívidas inexplicáveis e liberação de atletas que provocaram rombos milionários foram constantes nos quatro anos de sua gestão.
A auditoria constatou que atletas de renome como o goleiro Harlei e outros foram liberados pelo clube para firmar contratos com outros sem a menor justificativa e isso simplesmente não foi registrado na contabilidade.
Raimundo Queiroz cometeu um ato para com o clube que presidiu que deixou os conselheiros de queixo caído. O atleta Rodrigo de Souza Cardoso, que havia sido artilheiro do campeonato brasileiro da série A, a elite do futebol nacional, considerado um dos mais difíceis do mundo, recebeu um prêmio de Raimundo: foi liberado para jogar onde quisesse, firmando um contrato pelo valor que bem entendesse por um preço risível: 5% do que fosse vendido futuramente.
O ex-presidente liberou o artilheiro do campeonato de graça por pura bondade para com o atleta e seu empresário. Não se sabe se a bondade foi somente com os dois ou alguém mais lucrou com isso. O que se sabe é que o Flamengo, clube para o qual Souza foi liberado, negociou o passe do atleta com um clube da Grécia por 7 milhões de euros. Conselheiros do Goiás dizem que Raimundo Queiroz poderia ter negociado diretamente e que o ex-presidente optou por liberar pura e simplesmente o direito federativo de Souza e ganhar apenas os 5% que o clube até hoje não recebeu.
Em sua defesa perante a comissão de sindicância Raimundo disse que enquanto presidente-executivo do clube possuía plenos poderes para fazer todas as negociações que envolvessem liberação dos atletas. O prejuízo causado somente nesse ato foi de aproximadamente R$ 15 milhões, se levado em conta apenas a multa rescisória a que o Goiás teria direito pela liberação que favoreceu apenas ao jogador. Raimundo literalmente “jogou contra o patrimônio”, utilizando de uma linguagem futebolística.
Mistura — O advogado Igor Queiroz, filho do ex-presidente Raimundo Queiroz, acompanhou o pai na condução dos negócios do clube, de forma bem miscigenada. Igor, que era contratado do clube como advogado, foi também constituído procurador de alguns atletas que tinham contrato com o Goiás Esporte Clube. Ou seja, o filho do presidente era procurador de atletas que também recebiam do clube. Para Raimundo Queiroz essa atitude é integralmente ética e legítima.
Os recebimentos de Raimundo Queiroz no Goiás não se limitavam aos salários mensais. Os cartões de crédito corporativos que ele tinha à sua disposição por ser presidente-executivo para despesas previstas no estatuto tiveram seu uso extrapolado: a contabilidade detectou usos desmedidos e sem comprovação e, o que é pior, saques em dinheiro, o que não é considerado despesa e sim adiantamento. Para ficar melhor explicado: Raimundo Queiroz sacou em dinheiro vivo com seu cartão corporativo e a contabilidade não sabe como isso foi gasto. Os valores? Nada demais: somente em 2006 foram R$ 516.668,00.
Algumas atitudes administrativas de Raimundo Queiroz na presidência do Goiás beiram o grotesco. Um completo néscio que pouco entenda de contabilidade pode até acreditar, mas um indivíduo com inteligência mediana ficará ruborizado ao tomar ciência dos acontecimentos e se revoltará com as justificativas.
Em 15 de julho de 2004 um cidadão chamado Renato Padilha, que aparece como sócio da JF Esportes Ltda, entendeu de emprestar R$?986 mil para o Goiás Esporte com vencimento para 30 de janeiro de 2005 e pagamento de juros mensais de 3%. Como está no contrato o empréstimo foi feito em moeda corrente. O contrato é assinado por Renato e Raimundo Queiroz figurando como presidente do Goiás e como avalista.
Muito bem. Renato Padilha é empresário de jogadores e sua residência é em Ivoti, no Rio Grande do Sul. Somente uma parte do dinheiro apareceu na contabilidade do Goiás algum tempo depois. Raimundo Queiroz disse que antes da assinatura do contrato Renato já emprestara parte do dinheiro para o Goiás sem qualquer garantia e que foi ao interior gaúcho tomar dinheiro emprestado porque o clube não tinha crédito em Goiânia. Ledo engano. Raimundo mesmo conseguiu um empréstimo de R$?1,2 milhão com o BIC Banco no último dia de seu mandato e deu em garantia a cota de TV que o clube tinha junto à Rede Globo de Televisão para transmissão dos jogos do campeonato brasileiro.
A bondade de Renato Padilha era muito grande, pois mesmo sem receber os juros mensais, antes do vencimento do primeiro empréstimo compareceu ao Goiás Esporte Clube com a seguinte proposta: “Olhem só, eu não recebi nada ainda, sequer os juros, mas mesmo assim eu quero emprestar mais para o clube”. E emprestou mesmo: em janeiro de 2005 emprestou mais R$?350 mil em cash, sem fazer sequer uma transferência bancária ou um depósito, pois isto seria contabilizado.
Há um outro caso também pitoresco envolvendo os empréstimos que o Goiás conseguia, o ex-presidente e os credores. Adilson Antônio Vilarinho Braga cedeu seu nome para assinar um contrato em que estaria emprestando R$?346 mil para o Goiás, igualmente em moeda corrente (na mala) e a juros de 3,95%. No ato da assinatura o Goiás Esporte Clube deu o cheque com o valor do principal acrescido dos juros: R$?436 mil para vencimento em 10 de janeiro de 2007, ou seja, a semana do fim do mandato de Raimundo. Esse cheque foi pago com o empréstimo do BIC Banco.
Depois que Raimundo deixou o cargo a diretoria que o sucedeu desconfiou que a situação estava nebulosa e iniciou uma investigação. Raimundo foi pego no contra-pé pois a microfilmagem do cheque comprovou que Adilson Vilarinho endossou a ordem de pagamento, que foi depositada na conta-corrente da empresa Placar Assessoria e Marketing Ltda. Quem é o proprietário da Placar? Bingo: Raimundo Joaquim Queiroz.
Chamado às falas Raimundo Queiroz confessou que quem emprestou dinheiro para o Goiás fora ele mesmo. O ex-presidente que disse ser “um homem pobre” emprestou R$?346 mil e fez outro empréstimo de R$ 150 mil, também com vencimento em janeiro de 2007, poucos dias antes do fim de seu mandato. Candidamente Raimundo afirma que é comum dirigentes emprestarem dinheiro para clubes de futebol e cobrarem juros. Ele não consegue explicar é se ele e Adilson declararam a operação à Receita Federal.
Se é comum, lícito, legítimo e legal essa operação, por qual razão Raimundo não declarou tudo com transparência desde o início e porque Adilson apareceu como mero intermediador do empréstimo, o que ele ganhou com isso e porque esse dinheiro não foi declarado na contabilidade.
Resposta — Raimundo Queiroz foi procurado pela reportagem. Inicialmente ele se negou a se pronunciar e disse que somente na quinta-feira desta semana iria conceder uma entrevista coletiva. Pouco tempo depois o advogado Ney Moura Teles, que patrocina sua defesa, procurou o jornal e disse que daria as explicações de Raimundo. Em seu escritório a entrevista foi basicamente com Ney Moura, sendo que quando Raimundo esboçava falar alguma coisa era repreendido pelo advogado.
Ney justificou a operação do empréstimo para o clube feito por Renato Padilha como sendo normal e que em Goiânia não havia crédito para o clube. Disse que a liberação do jogador Souza foi legal e legítima, pois o clube conseguira a liberação junto ao clube português que detinha os direitos de federação do jogador sem ônus e que, por isso, deveria liberá-lo também sem ônus. A tese de Ney Moura é que Raimundo está sendo alvo de maldades porque é candidato a presidente do Goiás e tem chances de ser eleito novamente para o cargo.
Por: HÉLMITON PRATEADO
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